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Brasil NOW: A inteligência artificial é uma ferramenta, não o objetivo do negócio

Líderes empresariais defendem estratégia e governança acima da adoção da IA por tendência

24/6/2026
brasil now
Carmen Pizano
Carmen Pizano

A inteligência artificial só gera valor quando está a serviço da estratégia do negócio. Adotá-la apenas por tendência, sem objetivos claros e mecanismos de governança, pode resultar em investimentos desnecessários e projetos com baixo impacto. Essa foi a principal conclusão do painel "IA e Decisões em Tempo Real: como as grandes organizações do Brasil operam em tempo real", realizado em 24 de junho, em São Paulo, como parte do Brasil NOW: IA, Cloud e Transformação Digital no Próximo Ciclo, evento promovido pela SIMALCO que reuniu lideranças empresariais para discutir como a inteligência artificial está transformando a tomada de decisões nas organizações.

O painel foi moderado por Valter Wolf, Diretor de Projetos e Parcerias em Tecnologia da Brasscom, e contou com a participação de Cíntia Guberovic, Superintendente de Planejamento e Performance Estratégica do PagBank; Bruno Gobbet Gianini, Head de Data Analytics & IA do Itaú Unibanco; Thiago Barreto, Head of Innovation, Product & Design da Ambev; e Eric Leite, Head de IA, Dados e Analytics da Sabesp. Os executivos compartilharam como estão incorporando a inteligência artificial para acelerar a tomada de decisões em tempo real sem perder de vista a eficiência, a governança e a geração de valor para o negócio.

Logo no início da conversa, Valter Wolf destacou um dos principais desafios enfrentados atualmente pelas empresas: estabelecer uma governança eficaz diante do crescimento acelerado do uso da inteligência artificial, especialmente com o avanço do Shadow AI, quando colaboradores utilizam ferramentas não homologadas pela organização.

O moderador ressaltou que a governança não deve ser vista como um obstáculo à inovação, mas como um mecanismo para organizar o uso de uma tecnologia muito mais poderosa do que as ferramentas tradicionais. Nesse contexto, questionou como as empresas podem maximizar os benefícios da IA sem comprometer a segurança, a conformidade e o controle das informações.

A IA deve responder aos objetivos do negócio

Para Cíntia Guberovic, um dos maiores equívocos das organizações é transformar a inteligência artificial em um objetivo, quando ela deveria ser apenas um meio para alcançar resultados de negócio.

"A inteligência artificial é um caminho, uma ferramenta; nunca o objetivo do negócio."

A executiva lembrou que o mesmo aconteceu durante a transformação digital, quando muitas empresas passaram a tratar a digitalização como uma meta em si, em vez de focar em resultados como ampliar a base de clientes, reduzir o churn, melhorar a experiência do usuário ou aumentar a eficiência operacional.

"A tecnologia está a serviço do negócio", afirmou.

Como exemplo, explicou que no PagBank todas as iniciativas envolvendo inteligência artificial passam por um comitê especializado, responsável por avaliar se a IA realmente é a melhor solução para cada problema.

"Hoje todo mundo quer usar inteligência artificial, mas antes precisamos perguntar se ela é realmente a solução adequada", destacou.

Segundo ela, muitas empresas estão desenvolvendo agentes de IA sem compreender claramente qual problema desejam resolver, quando, em muitos casos, uma solução mais simples seria suficiente.

Experimentar, sim. Mas com propósito.

Thiago Barreto defendeu que as empresas devem experimentar novas aplicações de inteligência artificial, mas sempre com direção estratégica e objetivos bem definidos.

"Precisamos nos permitir experimentar e até errar, mas esses erros precisam ter propósito e um objetivo claro."

O executivo da Ambev observou que muitas organizações estão investindo em inteligência artificial apenas porque a tecnologia se tornou uma tendência.

"A pergunta não deveria ser por que usar IA, mas qual problema queremos resolver."

Na sua avaliação, a governança será essencial para evitar investimentos desnecessários e garantir que a inteligência artificial realmente fortaleça a estratégia da empresa.

"A IA deve potencializar aquilo que a organização quer alcançar, e não substituir sua estratégia."

Barreto também alertou que a velocidade da evolução tecnológica exige aprendizado contínuo e critérios claros para definir onde a inteligência artificial efetivamente agrega valor.

Eficiência também depende da arquitetura

Sob a perspectiva financeira, Bruno Gobbet Gianini destacou que a concorrência entre empresas como OpenAI e Microsoft vem reduzindo rapidamente o custo dos modelos de inteligência artificial.

Entretanto, ressaltou que a eficiência financeira não depende apenas do preço da tecnologia, mas principalmente da forma como as soluções são desenhadas.

Como exemplo, relatou que uma das primeiras iniciativas de IA desenvolvidas no Itaú começou com custos três vezes superiores ao esperado. Após redesenhar a arquitetura utilizando plataformas multiagentes, modelos mais eficientes e soluções determinísticas para tarefas que não exigiam IA generativa, o banco conseguiu reduzir esses custos em mais de 90%.

"Quando construímos corretamente os agentes e utilizamos a ferramenta adequada para cada tarefa, conseguimos controlar os custos e gerar melhores resultados", afirmou.

Para o executivo, o desafio não é apenas experimentar, mas construir soluções escaláveis e sustentáveis.

Governança para gerar valor

Apesar das diferentes perspectivas apresentadas pelos participantes, o painel convergiu para uma mesma conclusão: a inteligência artificial não deve ser implementada porque está na moda, mas porque resolve problemas concretos e gera valor para o negócio.

A governança, segundo os participantes, será o elemento fundamental para estabelecer prioridades, reduzir riscos, otimizar investimentos e garantir que cada iniciativa esteja alinhada aos objetivos estratégicos da organização.

Em um cenário em que novos modelos, plataformas e aplicações surgem continuamente, a principal mensagem do painel foi clara: a vantagem competitiva não estará em adotar mais inteligência artificial do que os concorrentes, mas em saber onde aplicá-la, como governá-la e qual impacto ela gera para o negócio.