Teresa Cristaldo, Singularity Mining: “A Argentina precisa de infraestrutura, logística e tecnologia para aproveitar o potencial do lítio”
A CEO da Singularity Mining, Teresa Cristaldo, afirma que o futuro do lítio argentino dependerá menos do tamanho de suas reservas e mais da capacidade do país de investir em infraestrutura, tecnologia e industrialização.


A Argentina integra, ao lado do Chile e da Bolívia, o chamado Triângulo do Lítio, região que concentra alguns dos recursos mais relevantes do mundo para a transição energética. No entanto, o país ainda enfrenta desafios importantes para transformar esse potencial geológico em uma indústria de maior escala. Teresa Cristaldo, CEO da Singularity Mining e empresária com mais de três décadas de experiência no setor, afirma que os principais gargalos continuam sendo a infraestrutura, a logística e a transferência de tecnologia.
“Hoje existe mais conectividade e mais estradas do que há alguns anos, mas ainda falta muito para acompanhar o crescimento que a mineração terá”, afirmou. A disponibilidade de recursos básicos, como energia elétrica, ainda é limitada. “Atualmente, em San Juan, existem cerca de cinco projetos de mineração e apenas um deles terá acesso à única linha de transmissão disponível, o que gera competição entre as empresas pelo recurso”, exemplificou.
Além de rodovias e redes de energia, o desenvolvimento da mineração exige investimentos em infraestrutura urbana e serviços de qualidade. Trabalhadores e suas famílias precisam de moradias, escolas, supermercados e atendimento de saúde. Também há demanda por empreendimentos residenciais de padrão elevado destinados aos profissionais em cargos de gestão.
Segundo Cristaldo, esse cenário abre espaço para o desenvolvimento do mercado imobiliário, já que os salários na mineração superam os 4 milhões de pesos argentinos e podem alcançar 7 milhões de pesos, dependendo da função. “A mineração é um fator de transformação econômica e social”, afirmou. “Províncias como Catamarca e San Juan melhoraram seus indicadores socioeconômicos graças ao desenvolvimento da atividade, incorporando infraestrutura hoteleira, capacitação permanente e cobertura de saúde para os trabalhadores. No Chile, a mineração contribuiu significativamente para a redução da pobreza.”
A executiva também destacou que os investimentos em mineração, devido ao elevado volume de capital necessário, são planejados para horizontes de 20 anos ou mais e caminham para modelos cada vez mais sustentáveis. “No Chile, hoje não se utiliza água doce na mineração, mas sim água do mar dessalinizada. Queremos implementar na Argentina o mesmo modelo de dessalinização utilizado pelos chilenos”, ressaltou.
Diante desse cenário, Cristaldo acredita que o setor precisa de maior coordenação para executar obras que beneficiem toda a indústria. Como referência, citou o modelo peruano, onde as empresas administram fundos destinados à construção conjunta de infraestrutura. “Na Argentina existem fundos fiduciários administrados pelos governos, que são transparentes, mas insuficientes. Quando as mineradoras administram seus próprios recursos, conseguem fazer mais investimentos e aportar mais capital”, afirmou.
Parques industriais e portos secos
Atualmente, a Argentina é o quarto maior produtor mundial de Carbonato de Lítio Equivalente (LCE). Segundo dados da Câmara Argentina de Empresas Mineradoras (CAEM), o país produziu 116 mil toneladas em 2025 e pretende atingir entre 350 mil e 418 mil toneladas anuais até 2030. Entre 2030 e 2032, poderá se tornar o segundo maior produtor mundial, superando Chile e China e ficando atrás apenas da Austrália.
Para Cristaldo, esse crescimento exige uma profunda transformação logística, que vai além da construção de estradas e da ampliação de serviços. Será necessário reconfigurar a infraestrutura para evitar congestionamentos no transporte e aumentar a eficiência das exportações diante da expansão da produção.
Integrante da APIA (Associação de Parques Industriais Argentinos), a executiva considera prioritária a criação de portos secos e parques industriais próximos aos grandes projetos de mineração ou em regiões de fronteira.
Os portos secos permitiriam centralizar os processos de autorização para que o minério seja despachado com maior agilidade até os portos marítimos. Já os parques industriais seriam fundamentais para abrigar centros logísticos, armazenagem de máquinas e caminhões, além da instalação de indústrias capazes de fabricar insumos estratégicos dentro do país.
Nesse contexto, Cristaldo defende a produção nacional de insumos essenciais para o processamento do lítio. Atualmente, grande parte da barrilha (soda ash) utilizada pela indústria é importada dos Estados Unidos, embora sua fabricação possa ser desenvolvida na Argentina.
“Para cada tonelada de lítio extraída são utilizadas entre oito e dez toneladas de cal e aproximadamente duas toneladas de barrilha. A Argentina gasta mais de US$ 400 milhões por ano importando barrilha da América do Norte. Não há necessidade disso. Não é complexo instalar fábricas de barrilha e de cal. São insumos estratégicos que poderiam ser produzidos localmente, gerando empregos e ampliando a cadeia de valor”, explicou.
Dois projetos no coração do Triângulo do Lítio
Enquanto a indústria busca soluções para superar seus desafios estruturais, a Singularity Mining avança com dois projetos localizados em algumas das áreas mais estratégicas do Triângulo do Lítio, região do altiplano sul-americano que concentra cerca de 53% dos recursos globais desse mineral. Diferentemente de outras regiões produtoras, o lítio é extraído de salmouras naturais presentes em grandes salares, método considerado altamente competitivo em termos de custos.
O primeiro projeto, denominado Singularity 1, está localizado no Salar de Archibarca e abrange aproximadamente 60 mil hectares, dos quais cerca de 20 mil apresentam elevado potencial produtivo.
O segundo projeto, chamado Rita, está situado ao lado do Salar del Hombre Muerto. A área compreende 80 mil hectares distribuídos em 35 propriedades minerárias com potencial para lítio e outros minerais.
O empreendimento encontra-se em fase avançada de exploração e já assegurou um compromisso de financiamento de US$ 120 milhões por parte de um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, destinado à construção de uma planta piloto.
“O fundo financia o projeto com opção de compra, portanto é bastante provável que venha a adquirir algumas minas. Trata-se de uma região extremamente relevante e com enorme potencial”, concluiu Cristaldo.

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