Marcela Romero, Schneider Electric: “O aumento da demanda por energia exige transformar a geração, as redes e o consumo”
Marcela Romero, CEO e presidente do Cluster Argentina, Paraguai e Uruguai da Schneider Electric, analisa como o crescimento da inteligência artificial está modificando a demanda por energia, o desafio de levar eletricidade a novos polos de consumo e o papel da digitalização para melhorar a eficiência das indústrias. Compartilhe esta matéria


O crescimento dos data centers, juntamente com a eletrificação de diferentes processos industriais, está levando as empresas a buscar novas formas de gerenciar um recurso que se torna cada vez mais crítico para suas operações.
“A inteligência artificial representa atualmente cerca de 13% da carga energética global dos data centers, com uma projeção de crescimento para 36% até 2030. Portanto, precisamos prestar atenção em como a demanda e a geração de energia estão mudando e em como gerenciar essa necessidade de energia completamente diferente, muito mais crítica”, afirmou Marcela Romero, CEO e presidente do Cluster Argentina, Paraguai e Uruguai da Schneider Electric, empresa de tecnologia especializada em soluções digitais para gestão de energia e automação.
Segundo a executiva, a inteligência artificial será um dos principais motores desse crescimento. “60% da energia gerada daqui até 2030 será utilizada pela IA. Se a Argentina realmente quiser aproveitar essa oportunidade, precisa ter a infraestrutura pronta, porque a inteligência artificial não vai esperar por nós. E isso precisa começar agora”, afirmou.
Uma demanda por energia que muda de geografia
O desafio não se limita a gerar mais energia. Também envolve adaptar as redes e melhorar a eficiência com que essa energia chega aos pontos de consumo.
Na Argentina, a demanda por energia esteve historicamente concentrada em determinados centros industriais, especialmente em regiões como Rosário e Córdoba, ligadas às indústrias metalmecânica, eletromecânica e automotiva. Agora, o surgimento de novos polos produtivos e projetos de geração renovável está levando parte dessa demanda para áreas afastadas dos grandes centros urbanos.
Isso exige pensar não apenas na geração, mas também na transmissão, distribuição e gestão. Uma parcela importante da energia é perdida ao longo desse percurso, enquanto as empresas buscam cada vez mais alternativas para reduzir seus custos e garantir o abastecimento.
Muitas companhias estão instalando seus próprios parques solares ou eólicos para gerar a energia que consomem. No entanto, a geração renovável própria nem sempre é suficiente para sustentar uma operação industrial durante as 24 horas do dia, o que leva as empresas a complementar esse abastecimento com energia adquirida de terceiros.
Nesse cenário, para Romero, a tecnologia pode se tornar uma ferramenta para tomar decisões mais precisas sobre o consumo e a compra de energia.
“Para garantir os investimentos, obter resultados no curto prazo e fazer com que sejam sustentáveis ao longo do tempo, é necessário implementar mais tecnologia para medir e gerenciar essa energia. É preciso ter informações sobre de quem compro determinado tipo de energia, em que momento, quanto pago por ela, se o preço está correto e se estou gerenciando a demanda da forma mais eficiente possível”, explicou.
A executiva considera que a Argentina conta com boa parte dos recursos necessários para avançar nesse processo: investimentos, um mercado que demanda soluções de eficiência e profissionais especializados.
“Acredito que a resposta está em continuar investindo em tecnologia. Um pequeno investimento em instrumentação e controle dos processos pode fazer com que, desde o primeiro dia, deixemos de perder uma parcela importante da energia que é gerada”, afirmou.
O impacto também pode ser medido diretamente nos custos. Segundo Romero, uma gestão mais eficiente poderia permitir às companhias reduzir entre 15% e 20% seus custos com energia e, ao mesmo tempo, diminuir os custos operacionais por meio de menor necessidade de manutenção e maior previsibilidade da demanda.
Gerenciar a energia
A transformação não passa apenas pela incorporação de equipamentos. Também exige sistemas capazes de processar as informações e convertê-las em decisões.
“A eficiência da estratégia de decidir de quem, quando e que tipo de energia comprar dependerá de colocar inteligência em tudo isso. É necessário um software que gerencie todas essas informações para que o consumo de energia seja o mais dinâmico possível e garanta o menor custo”, afirmou Romero.
Nesse processo, a Schneider Electric também ampliou seu foco para software e gestão digital. Nos últimos anos, a companhia realizou aquisições de empresas de software com o objetivo de complementar suas soluções de infraestrutura física com ferramentas de controle e gestão.
“Já não se trata apenas do investimento nos equipamentos, mas também na infraestrutura de controle de toda a gestão da planta. Não importa se somos nós que fornecemos a marca ou não. Isso dá independência na hora de decidir se você vai utilizar um software ou outro”, explicou Romero, engenheira industrial que ingressou na Schneider Electric em fevereiro de 2024.
Da manutenção preventiva à preditiva
A digitalização também está mudando a forma como as indústrias realizam a manutenção de seus equipamentos.
Os sistemas da Schneider Electric registram continuamente variáveis de diferentes processos industriais. Essas informações permitem analisar o comportamento dos equipamentos e antecipar possíveis problemas antes que ocorra uma falha.
“Antes, trabalhava-se com manutenção preventiva: os equipamentos eram revisados e peças eram substituídas para evitar possíveis falhas. Mas as paradas de planta para inspeção tendem a desaparecer com uma manutenção mais inteligente. Agora, são analisadas as variáveis de comportamento do processo e dos equipamentos instalados, e as falhas são previstas”, explicou.

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