Fabio Leite, da DuPont: "É central inovar dentro do cliente"
Para o CEO da empresa para a América Latina, a inovação já não nasce só em centros de excelência e precisa resolver necessidades reais em água, saúde e mobilidade — melhoria contínua é condição de sobrevivência na era da IA


Fabio Leite, CEO da DuPont para a América Latina, está há mais de 20 anos na companhia, onde começou como estagiário. Nos últimos anos, vem liderando projetos de expansão, transformação operacional, eficiência e integração de portfólio em toda a região. Após a reestruturação societária da DuPont, a operação latino-americana manteve em seu portfólio o negócio de água e saneamento, que Leite considera um dos principais motores de crescimento na região, ao lado de saúde e proteção e de mobilidade e energia. De acordo com o executivo, os três mercados têm a mesma premissa: a inovação só ganha espaço quando responde a uma necessidade concreta do cliente.
As estações de água tradicionais são um bom exemplo de mudança das condições de operação que exigem inovações de impacto para a infraestrutura. Essas estações dependem de grandes tanques de flotação, decantação e aeração, que exigem áreas extensas e empurram a água por longas distâncias, o que multiplica as perdas técnicas por vazamentos e desvios. Elas também forçam desapropriações de áreas grandes e necessitam de investimentos que considerem a demanda futura. Já as soluções modulares permitem ampliar a capacidade de vazão conforme a população cresce, enquanto o capital que não foi imobilizado antecipadamente atende a outras regiões com a mesma necessidade.
Para Leite, é justamente quando o desenho original das cidades não dá conta das novas demandas que a tecnologia ganha espaço. É o caso de Brasília, cidade planejada para ser a capital do Brasil e inaugurada em 1960, que enfrentou forte estresse hídrico na década passada. Para ampliar a oferta de água, o governo optou por uma estação de ultrafiltração, com tecnologia da DuPont, para tratar a água do Lago Paranoá. A obra levou cinco meses, ocupa cerca de um terço da área de uma estação convencional e consome menos energia, já que a água percorre distâncias menores. “A tecnologia serve para endereçar problemas que, quando a cidade foi idealizada, não eram tão presentes quanto hoje”, afirma.
Para o executivo, isso é decisivo diante da meta do marco legal do saneamento do Brasil: 99% de água tratada e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033. Ele evita cravar se o país chega lá, mas diz ser otimista. Na sua leitura, o caminho combina tecnologias já disponíveis, pequenas estações de esgoto e reúso industrial, especialmente em setores de alto consumo, como o de papel e celulose.
Ainda dentro dos desafios brasileiros, especificamente no setor da saúde, Leite reconhece o potencial do país com pesquisa de excelência e o SUS (Sistema Único de Saúde) como referência internacional de acesso universal. O obstáculo está no ambiente para produzir. "Ser industrial no Brasil é quase um ato de heroísmo. Quando você tem que investir para ter um retorno em 10 ou 20 anos, isso exige uma visão de estabilidade muito grande. E quando o custo de capital é muito alto, isso desincentiva", afirma. Por outro lado, ele aponta que a recente reforma tributária pode ser uma importante alavanca de crescimento e desenvolvimento. O papel da DuPont nesse cenário é fornecer soluções que garantam rastreabilidade, confiabilidade e qualidade, das quais dependem a produção de vacinas e a competitividade global das embalagens farmacêuticas.
Na mobilidade, a inovação acompanha uma transformação que já ganha escala na América Latina. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), as vendas de carros elétricos na região cresceram 75% em 2025, superando 350 mil unidades. Nos ônibus, o avanço também é expressivo: dados do International Council on Clean Transportation (ICCT) mostram que a frota de ônibus elétricos da América Latina e do Caribe chegou a 9.115 veículos em 2025, 40% acima do ano anterior.
É nesse contexto que entra a tecnologia estrutural. Substituir soldas e rebites por adesivos estruturais reduz o peso de carros e ônibus e, com ele, o consumo de energia. O adesivo é capaz de manter as baterias fixas com segurança e permitir sua troca sem desmontar o veículo. Segundo Leite, é uma solução técnica que levou décadas para ser desenvolvida. “Além da questão da sustentabilidade, isso é mais barato e as pessoas têm um benefício”, afirma. Ele lembra que um motor a combustão aproveita entre 15% e 20% da energia do combustível, contra cerca de 95% de um motor elétrico. O primeiro envolve cerca de 600 fornecedores na cadeia, contra cerca de 40 no segundo.
Olhando para o continente, Leite afirma que Brasil e México estão à frente em inovação: o primeiro por escala, mercado interno e instituições de pesquisa; o segundo por sua relação simbiótica com a indústria americana. No restante da América Latina, o cenário é mais híbrido, com uma indústria de alimentos forte, farmacêutica menos desenvolvida e a presença de polos exportadores em países como Costa Rica e Guatemala.
Suas principais apostas de crescimento de negócios para os próximos cinco anos estão em três pilares: conexão com o cliente, cultura forte e melhoria contínua. Ele lembra que a DuPont criou produtos como o nylon, o Kevlar e o Tyvek antes que houvesse demanda por eles, mas que hoje a inovação está distribuída e acontece em qualquer lugar, não somente em laboratórios e centros de excelência. Por isso, defende que os colaboradores estejam perto do cliente e inovem a partir de necessidades reais. A melhoria contínua é condição de sobrevivência num momento em que a inteligência artificial reescreve o mercado. "Se você não pensar assim, em pouco tempo fica fora do negócio, porque o mundo está mudando e a gente está assistindo isso em tempo real", afirma.
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