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Antonio Neri, da DEACERO: “A siderurgia precisa evoluir de processos automatizados para operações inteligentes”

O CIO da DEACERO explica por que a transformação da siderurgia não consiste apenas em automatizar processos. O próximo salto está em conectar dados, energia, produção, matérias-primas e manutenção para construir operações capazes de responder a condições em constante mudança.

17/9/2026
Antonio Neri, DeAcero
Carmen Pizano
Carmen Pizano

A indústria siderúrgica automatiza linhas de produção, utiliza sistemas de controle e gera grandes volumes de dados há décadas. Para Antonio Neri, CIO da DEACERO, a mudança trazida pela inteligência artificial vai além: significa passar de processos que executam instruções previamente definidas para operações capazes de aprender e se adaptar.

“Automatizar um processo é executar mais rapidamente uma decisão que já foi tomada por uma pessoa”, explica Neri. “Uma operação inteligente é capaz de tomar decisões, aprender e se reconfigurar diante de condições que ninguém programou.”

A diferença é particularmente relevante em uma indústria intensiva em capital, energia e matérias-primas, na qual pequenas melhorias em produtividade, custos e utilização de ativos podem gerar impactos importantes para o negócio.

Por isso, na DEACERO, a inovação não começa necessariamente pela busca da tecnologia mais avançada disponível.

“Não buscamos a tecnologia de ponta simplesmente para resolver um problema. O que temos buscado, e no que insistimos muito, é identificar oportunidades de geração de valor e, depois, perguntar se a tecnologia, a inteligência artificial ou qualquer outra ferramenta é a alavanca correta para capturá-lo”, afirma.

A companhia analisa oportunidades relacionadas a custos, atendimento, rentabilidade e conhecimento de mercado para, posteriormente, determinar quais ferramentas podem solucionar cada problema.

Da automação à tomada de decisões

A automação industrial não é novidade para a siderurgia. Sistemas de controle, PLCs e processos automatizados operam há décadas nas plantas industriais.

O novo desafio, segundo Neri, é incorporar capacidade de decisão a uma operação na qual diversas variáveis mudam constantemente.

Um exemplo seria uma alteração na qualidade da sucata utilizada como matéria-prima, uma variação na tarifa de energia elétrica ou uma mudança na demanda por determinados produtos.

Uma operação inteligente poderia utilizar essas informações para modificar ritmos e sequências de produção e até determinar quando é conveniente interromper determinados processos diante de um aumento no custo da energia.

“A automação, como tal, é algo determinístico: coloco uma entrada e ela gera uma saída. O salto para uma operação inteligente é completamente diferente”, explica.

Para Neri, trata-se de avançar para processos capazes de se ajustar utilizando informações, modelos probabilísticos e uma visão sistêmica da operação.

A IA ainda está em uma fase inicial

Apesar do rápido avanço da inteligência artificial, Neri considera que a indústria ainda está dando os primeiros passos em direção a esse modelo.

Atualmente, existem soluções voltadas para problemas específicos, mas ainda é necessário conectá-las para construir processos inteligentes de ponta a ponta.

“Hoje estamos dando alguns passos iniciais em termos de tecnologias que começam a avançar nessa direção”, reconhece. “Ainda não chegamos lá, mas há coisas que vão mudar.”

A DEACERO, por exemplo, está realizando testes relacionados à identificação e classificação de sucata por meio de câmeras e ferramentas de inteligência artificial.

O potencial vai além de reconhecer o material que chega aos pátios de matérias-primas. Essas informações poderiam posteriormente ser conectadas aos planos de produção e, eventualmente, às decisões de manutenção e demanda.

É nesse ponto que surge um dos principais desafios identificados por Neri para os próximos anos: conectar processos que atualmente começam a incorporar inteligência de maneira isolada.

“Hoje estamos começando a atacar soluções focadas em determinadas partes do processo. O desafio daqui para frente é conseguir conectar o todo”, afirma.

Neri estima que, em um horizonte de aproximadamente cinco anos, essas capacidades poderão começar a produzir resultados diferentes dos atuais.

“A tecnologia está avançando muito mais rápido do que estamos percebendo. A inteligência artificial está acelerando enormemente o que as organizações podem fazer.”

Energia: uma variável cada vez mais crítica

A transformação tecnológica também ocorre em um contexto de crescente pressão sobre a disponibilidade de energia.

Em uma siderúrgica, ter previsibilidade sobre energia, matérias-primas e outros insumos é fundamental para organizar a produção. No entanto, Neri observa que a expansão de novas cargas tecnológicas está aumentando a competição por esse recurso.

“O acesso à energia está mais complicado devido ao forte crescimento da demanda”, afirma, mencionando especificamente o aumento da capacidade computacional exigida pela inteligência artificial.

Para empresas intensivas em energia, essa dinâmica adiciona uma nova variável ao planejamento industrial.

O paradoxo é relevante: a inteligência artificial pode contribuir para otimizar processos industriais, mas, ao mesmo tempo, a infraestrutura que a sustenta está elevando a demanda energética e aumentando a competição por energia com outras indústrias.

O outro gargalo: combinar tecnologia e conhecimento industrial

A transformação também não depende exclusivamente de infraestrutura e software. A DEACERO enfrenta outro desafio: encontrar profissionais que combinem conhecimento tecnológico com uma compreensão profunda dos processos siderúrgicos.

“Há talentos surgindo, há profissionais aprendendo a utilizar a tecnologia, mas o que encontramos no mercado muitas vezes carece de compreensão e profundidade sobre o negócio”, explica Neri.

A empresa optou por combinar dois perfis.

De um lado, colaboradores com 20 ou até 30 anos dentro da organização, que conhecem plantas, fornecedores, clientes e processos. De outro, profissionais que chegam com conhecimentos em tecnologias emergentes.

“Encontrar hoje talentos preparados para resolver questões relacionadas a processos produtivos ou de manufatura, com tanta automação e com a quantidade de dados que são gerados, é complicado”, afirma.

Para Neri, reunir todo esse conhecimento em uma única pessoa é difícil. A alternativa é construir equipes nas quais a experiência industrial e as novas capacidades tecnológicas se complementem.

Economia circular conectada à tecnologia

A gestão da sucata acrescenta outra dimensão ao processo de transformação.

Nas siderúrgicas que utilizam fornos elétricos a arco, a sucata constitui uma matéria-prima fundamental e faz parte de um circuito de economia circular no qual o aço pode ser reincorporado ao processo produtivo.

“Isso viabiliza uma economia circular”, afirma Neri.

A oportunidade tecnológica, agora, consiste em conectar essa cadeia ao restante da operação: desde a identificação e aquisição da matéria-prima até seu impacto na produção, no consumo de energia e na entrega do produto final.

“Integrar tudo isso com uma visão holística vai proporcionar uma perspectiva diferente da indústria, da forma de fazer negócios e das diferentes soluções que podemos levar aos mercados”, antecipa.

Uma indústria cheia de problemas para resolver

Para Neri, essa transformação também abre oportunidades para uma nova geração de engenheiros e especialistas em tecnologia.

Embora empresas de software e tecnologia normalmente tenham maior visibilidade entre os jovens profissionais, ele considera que uma planta siderúrgica apresenta problemas de engenharia muito mais diversos do que pode parecer para quem observa a indústria de fora.

Sensores, motores, vibrações, manutenção preditiva, eletrônica, sistemas de controle, energia, dados e inteligência artificial convivem dentro de uma mesma operação.

“Uma empresa de manufatura intensiva em capital, com processos produtivos tão complexos, tem uma enorme quantidade de problemas e desafios que, quando vistos de fora, podem parecer invisíveis”, explica.

Neri, engenheiro em sistemas eletrônicos com mestrado em administração de telecomunicações, reconhece que ele próprio não imaginava, no início de sua carreira, que acabaria trabalhando na indústria siderúrgica.

A experiência mudou sua perspectiva.

“Quando você entra em uma siderúrgica e vê o processo de produção e de fusão, entende a dimensão de uma empresa como esta”, afirma. “É uma indústria apaixonante e você nunca deixa de aprender.”

Para a DEACERO, o próximo capítulo dessa indústria não parece estar simplesmente em substituir processos existentes por inteligência artificial. O desafio será conectar a experiência acumulada ao longo de décadas com dados e tecnologias capazes de transformar uma planta automatizada em uma operação que também possa aprender, antecipar-se e se adaptar.